CARLOS GERALDO LANGONI

TENSÃO EXTERNA

A escalada da guerra comercial entre Estados Unidos e China alimentou onda de incerteza e elevou a aversão global ao risco.

O impacto de curto prazo foi forte volatilidade nos mercados acionários e viés de desvalorização nas moedas dos países emergentes.

Câmbio:

Os chineses reagiram ao anúncio de tarifas adicionais aplicados a um volume crescente de suas exportações com a desvalorização do yuan, que rompeu a barreira de 7 dólares após 11 anos.

A preocupação é de que retaliações tarifárias sejam amplificadas com a guerrilha cambial, aumentando a volatilidade de uma economia mundial já em desaceleração.

Os Estados Unidos acusam a China de manipulação cambial e indicam que pretendem levar essas políticas para avaliação do FMI.

É tema recorrente que a China sempre utilizou a desvalorização de sua moeda como instrumento de estimulo às exportações.

Mas há claro limites à essas políticas, muito além da pressão de organismos multilaterais - o Fundo e a própria OMC, paradoxalmente, desprestigiada pelo governo Trump.

As restrições internas são pressões inflacionárias e estímulo à fuga de capitais, mesmo sendo amortecidos por rígidos controles após a crise de 2008.

A China parece consciente dos limites dessa forma de retaliação. Permanece, entretanto, em aberto, a viabilidade de um acordo, ainda que provisório no curto prazo, a fim de evitar o mergulho recessivo da economia mundial.

Cenários:

A elevação na tensão externa encontra a economia brasileira ainda em transição: a agenda de reformas avança e não há mais dúvidas quanto à aprovação da reforma da Previdência e à dimensão de sua potência fiscal.

Outro importante desafio é a modernização tributária, que será debatida no Congresso ainda este ano.

As vendas no varejo em junho, tanto no conceito restrito como ampliado, confirmam a relativa estagnação da atividade.

Antecipa-se melhora gradual com a flexibilização monetária e estímulos de curto prazo (saque antecipado no FGTS).

Questão relevante é saber se a piora no cenário externo poderá, ou não, interferir na política de cortes adicionais na SELIC pelo BC.

Ajuste:

Fator compensatório relevante é a solidez do balanço de pagamentos. O ajuste externo, bem-sucedido, reduziu drasticamente o déficit em conta-corrente que é financiado, confortavelmente, por capitais de longo prazo.

O elevado nível de reservas internacionais (cerca de US$ 400 bilhões) não evita a mudança do viés cambial que passou a ser de desvalorização.

Impede, porém, juntamente com o progresso na correção do desequilíbrio fiscal, o overshooting do dólar que dificilmente ultrapassará a barreira emblemática de R$ 4.

Desta forma, será possível diminuir a contaminação das expectativas, facilitada pelo baixo nível da inflação corrente: o IPCA em 12 meses recuou, em julho, para apenas 3,22%.

Ou seja, os efeitos primários da guerra comercial sobre câmbio, juros e inflação podem ser minimizados.

É impossível, entretanto, amortecer as graves consequências de uma possível descontinuidade recessiva global.

Em resumo, o aumento das tensões comerciais entre Estados Unidos e China dificulta o reaquecimento da atividade econômica no Brasil.

Indiretamente aumenta a pressão para avançarmos mais rapidamente na agenda de reformas.

O impacto negativo de curto prazo desta onda global de incerteza é diluído pela solidez das contas externas.

De qualquer forma, o aprofundamento da crise poderá adiar a esperada transição para novo estágio de crescimento sustentado.

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