Mudanças de governos provocam incertezas. No caso específico da Argentina, na troca de poder, as incertezas são maiores. Agravadas por declarações e comentários, no mínimo, inoportunos quando não inadequados.

Um presidente argentino eleito opinando sobre um tema sensível para o Brasil, a prisão do ex-presidente Lula. Um presidente brasileiro em exercício demonstrando suas preferências na eleição argentina, indicando que não pretende parabenizar ao Alberto Fernández e fazendo declarações sobre uma eventual saída do Mercosul. Há incertezas como: Qual Fernández governará na Argentina? Alberto ou Cristina? Qual é o plano de governo e plano econômico de Alberto? O da Cristina pode se imaginar a partir da experiência passada. Na falta de informações as incertezas aumentam e as opiniões são precárias, mas há algumas considerações a serem feitas.

• A campanha eleitoral acabou e agora é hora de ser pragmático.

• O processo eleitoral na Argentina foi impecável com elevada participação e quase sem incidentes. Os ex-candidatos mostram moderação e serenidade nos discursos e ações no intuito de facilitar a transição.

• Argentina está atravessando uma gravíssima crise econômica, com mais de 30% da população em estado de pobreza e o restante, como alguns indicam, muito ansiosos por conhecer o que vai acontecer.

• Os resultados das eleições demonstram, além da já conhecida polarização entre duas forças ou movimentos, um equilíbrio maior do que se esperava entre o futuro oficialismo e o atual governo. Se espera, portanto, capacidade de negociação no âmbito do Congresso onde existe um equilíbrio de representantes na Câmara de deputados.

• Dito equilíbrio, pode vir a limitar potenciais tentativas arbitrárias do governo eleito. O presidente Macri, teve um desempenho eleitoral bem melhor do que se especulava, e do esperado perante a gravidade da crise econômica.

• Brasil e Argentina ainda são importantes parceiros comerciais. A Argentina é para o Brasil o terceiro parceiro (sem considerar os efeitos das exportações via Holanda) comercial, assim como o Brasil é para Argentina.

• A Argentina é o principal destino das exportações industriais, aquelas que geram maior valor adicionado e trabalho.

• Nesse sentido, deve reconhecer-se que por diversos fatores, a competitividade da indústria nos dois países, deverá melhorar para ampliar as possibilidades de exportação fora do bloco ou para fazer frente a importações de outros mercados.

• O recente acordo em vias de implementação entre o Mercosul e a União Europeia, e outros em andamento (Canadá, Coreia, Singapura) apresenta uma oportunidade talvez única de abertura econômica e acesso a um Mercado relevante, o que vai requerer de esforços relevantes para incrementar a competitividade dos fatores de produção dos países membros do Mercosul onde efetivamente existem vantagens comparativas.

• Adicionalmente, Brasil e Argentina podem utilizar as suas moedas locais para as suas transações, por exemplo os exportadores argentinos podem exportar em reais.

Em resumo:

Argentina tem um enorme desafio para organizar sua macroeconomia. A agenda passa por reduzir inflação e os permanentes déficits, fazer frente a um elevado endividamento do setor público, sair da recessão, frear a corrida cambiária, reduzir a pobreza que afeta um terço da população, dentre outros. A agenda do Brasil é, sem dúvida, desafiadora, porém inserida num quadro macroeconômico melhor, com inflação controlada, queda das taxas de juros, incipiente redução da taxa de desempregados, uma reforma da previdência aprovada e outras (tributária, administrativa) em andamento e um programa de privatizações e concessões em implementação e sendo ampliado.

Acreditamos na força da relação entre o Brasil e a Argentina, baseado em inúmeros laços: culturais, geográficos, comerciais e históricos. Devemos reconhecer que os tempos e as circunstâncias macroeconômicas podem estar mais ou menos alinhadas num momento determinado. No entanto, perante os mencionados laços, esforços devem ser perseguidos, tanto desde o setor público quanto do setor privado, para não desperdiçar a oportunidade de, em conjunto, criar plataformas de desenvolvimento que permitam acelerar o desenvolvimento dos dois países. Ansiedade, excesso de ideologias sem adequado fundamento socioeconômico, não permitem discutir em tempo e forma o "como" iniciar uma trilha de trabalho conjunto e produtivo. O Brasil é a maior democracia e economia da América Latina. Isto deve ser reconhecido e devidamente respeitado pela Argentina, e, por sua vez, requer que o Brasil assuma essa, quase óbvia, responsabilidade e representatividade regional. A Argentina talvez pense em implementar políticas que venham a ser vistas como restritivas para o comércio e o mercado dado o tamanho da crise econômica e social que está enfrentando, resultado de um conjunto de erros de várias décadas. Medidas desta natureza virão a provocar um claro desalinhamento com o que se pensa hoje no Brasil, porém, voltando mais uma vez aos mencionados laços que unem as nações, acreditamos que pontes criativas devem ser desenhadas e implementadas para nos permitir transitar um sinuoso caminho e estabelecer um marco de relacionamento ainda mais saudável. Temos a oportunidade de sairmos ainda mais fortes da crise. Isto requer um tipo de liderança diferenciado, com equilíbrio no curto e médio prazo, com um claro propósito de trazer prosperidade a nossas populações. Resulta difícil entender como dois países que podem alimentar 10 vezes o tamanho da sua população, ou seja 2,5 bilhões de pessoas (um terço da população global), com um capital humano jovem, digital, conectado, criativo e empreendedor, com mais de 15 unicórnios, com fontes de energia, água e terra fértil, não possam vir a trabalhar de forma alinhada e coordenada para transformar suas vantagens comparativas em verdadeiras vantagens competitivas assumindo o papel e a responsabilidade que tem perante suas populações e o mundo. Governos passam, líderes mudam, nações e sua gente ficam. Desde o setor privado temos a responsabilidade de ser parte ativa nestas discussões atendendo as responsabilidades perante todos os atores da sociedade.

Federico A. Servideo

Presidente CAMARBRA

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