CARLOS GERALDO LANGONI

RISCO POLÍTICO

As tensões entre o Executivo e o Legislativo geraram forte elevação na aversão ao risco com impacto negativo sobre o Ibovespa e o câmbio. Com o anúncio de trégua, os excessos foram corrigidos. Ou seja, a componente política volta a dominar a formação das expectativas.

Confiança:

Os índices de confiança do consumidor e da construção civil calculados pela FGV apresentaram expressiva queda em março.

É reflexo do ritmo lento de recuperação da renda e do emprego, além da piora na avaliação do Governo traduzida nas pesquisas de opinião pública. De acordo com a PNAD Contínua, a taxa de desocupação voltou a subir (12,4%), no trimestre móvel encerrado em fevereiro.

A deterioração no ambiente de negócios aprofundou-se com a crise de governabilidade que ameaça o timing e o conteúdo da reforma da Previdência.

Exemplo concreto foi a aprovação em tempo recorde pela Câmara da PEC que engessa ainda mais o orçamento federal. Há também a ameaça de medidas na contramão da austeridade fiscal como o repasse de cerca de R$ 40 bilhões para os estados como compensação da Lei Kandir.

O Ministro Paulo Guedes tem enfatizado a importância de manter a economia de gastos com a Previdência na faixa de R$ 1 trilhão.

Essa é a potencia fiscal necessária para um ajuste sustentado e consistente, capaz de reverter a tendência explosiva da relação dívida / PIB.

Ameaça:

O viés de desvalorização cambial, com o dólar próximo de 4 reais, e o mergulho do mercado acionário que voltou a flutuar próximo dos 90 mil pontos, refletem o tsunami de incertezas quanto ao destino desta reforma-chave.

O comportamento do real descolou-se de seus fundamentos macro: o déficit em conta-corrente recuou em fevereiro com bom desempenho da balança comercial.

Houve, também, expressivo aumento do fluxo de investimento direto estrangeiro que atingiu 4,77% do PIB, financiando confortavelmente o desequilíbrio externo.

O cenário mundial está mais complicado, com sinais de desaceleração do comércio internacional. Por si só não seria, entretanto, suficiente para justificar tamanha descontinuidade nas expectativas.

Guedes:

O que está em jogo é a permanência de Paulo Guedes na liderança da agenda liberal.

A Previdência é o primeiro passo de uma sequência de mudanças estruturais, única alternativa para recolocar o Brasil em novo padrão de crescimento acelerado e sustentado.

A reforma do Estado, reduzindo seu nível de intervenção direta e indireta, passa pela simplificação e otimização tributária, concessões e privatizações, além de um processo amplo de abertura da economia.

A alternativa é prolongada estagnação alavancada por fuga de capitais e retorno da inflação, com aprofundamento da crise social e o inevitável caos político.

Paulo Guedes precisa contar com amplo apoio do Presidente e do Congresso para realizar essa transformação econômica fundamentada. É um novo modelo de desenvolvimento que vem sendo adiado por décadas.

Em resumo, o agravamento da crise política ameaça a nova economia liberal - única opção para romper a armadilha da estagnação.

A reforma da Previdência não é, por si só, o único fator crítico para recuperarmos o crescimento. É, porém, precondição para corrigir os desequilíbrios internos, além de desempenhar papel crítico na formação das expectativas.

Dúvidas quanto à sua dimensão final e timing de aprovação pelo Congresso alimentam a piora na percepção de risco-país, com impacto negativo sobre o câmbio e decisões de investimento.

O desafio é reduzir as incertezas em relação à qualidade e eficiência da gestão política, superando o teste crucial de governabilidade.

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